sexta-feira, 13 de março de 2020

De cangalhas


De cangalhas

Bastou uma pequena lufada de bichinhos minúsculos.
Parece um tornado.
A terra tremeu.
Pobres e ricos.
Fortes e fracos,
Defendem a vida,
Com unhas e dentes,
Se agarram ao chão.

Cerraram as escolas.
Hospitais e clínicas,
Num gesto humano,
Dão-se as mãos.
Vêem-se aflitos,
Sem mãos a medir.

O dinheiro nos bancos
Fica gelado,
Não tem quem o trate.

Os figurões do dinheiro,
Com medo da morte,
Gemendo aflitos,
Tudo açambarcam.

Só os que dormem na rua,
Habituados a tudo,
Ao frio e à chuva,
Continuam alheios
Ao vírus da morte,
Como se estivessem em casa.

Mafra, 13 de Março de 2020
16h52m
Jlmg

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Pão de ovelhinha


Pão de ovelhinha

Estaladiço. Quentinho.
Cheirando a carvão.
Um punhado de farinha.
Com manteiga (quem a tinha?)
ou sem manteiga.
Queijo de cabra.
Que delícia, à segunda-feira.

Vinha, para lá de Amarante.
Num açafate exposto.
Era um regalo.
Por dois tostões.
Lhes lembro o gosto.

Por tão pouco,
A consolação dos pobres.

Quem os vendia era a Emilinha dos ovos.
Do lugar da Forca.

Ainda não havia croissants…

Bar “Pólo Norte” em Mafra, 29 de Fevereiro de 2020
9h54m
Jlmg

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Para minha defesa...

Para minha defesa…
 
Cuido de minha sanidade mental.
Para não dar em maluco.
O descalabro é tão grande na comunicação social.
Carece o bom senso.
Alardeia-se o banal.
Omite-se o importante.
Há erros de escrita.
Merecem castigo.
Gastam o tempo repetindo o já dito.
Uma televisão acesa encharca o café.
Rouba a paciência.
Os pivôs fazem caretas.
Dão cambalhotas.
Parecem macacos.
O que dizer dum jornal.
A verdade não conta.
O que importa é confundir.
Pró partido ou para a seita.
Alienantes.
Só lhes vale o papel.
Acende a lareira
E embrulha as castanhas.
Ao que a gente chegou!...
 
Mafra, 28 de Fevereiro de 2020
15h51m
Jlmg

Lírios à borda da estrada

Lírios à borda da estrada
Estão à janela, vendo quem passa,
nas bordas da estrada.
Arautos alegres, saúdam e apelam à calma.
A vida é tão breve.
Não adianta correr.
Hinos de paz.
Bandeiras bailantes.
O sol os acaricia.
Bailam ao vento.
Orlas de cor.
Pintadas de fresco.
Não cobram serviço.
Só pedem respeito.
Irradiam alegria.
Harmonia perfeita.
À chuva e ao sol,
Regalam os olhos.
Quem dera, a vida
Do pobre e do rico,
Batida de agruras,
Regada de pranto,
Seguisse o exemplo
dos lírios à da borda da estrada.
Bar “Caracol” arredores de Mafra, 28 de Fevereiro de 2020
9h25m
Jlmg

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Suave maresia


Suave maresia
 
Brisa cristalina que se evola em ondas acrobáticas.
Sobe encostas. Banha campos.
Poalha leve, ardente e harmoniosa.
Sara feridas. Acende fogos.
Fecunda amores.
Abraço breve dum estio que se queria quente.
Harpa crente, sem som à vista.
Um amor passado que a lembrança traz.
Um raio a arder que não chegou à terra.
O fulgor da esperança a sorrir de verde.
A saudade ardente que consola a alma.
Um passado ausente que se faz presente.
O beijo quente que nunca andou na escola…
 
Ouvindo Martha Argerich plays Ravel Piano Concerto in G Major + Encore
Mafra, 27 de Fevereiro de 2020
18h49m
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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Planeta Terra


Planeta Terra
Terra, planeta rugoso e desatinado,
Pelas mãos de quem o povoa,
Rompeu a sua órbita,
Todo impante.
Escravizado pelo dinheiro e sujidade,
Quer ser o que não é.
Por mais milénios que já tenha,
Nunca terá a eternidade.
Fragmento anódino, perdido no universo.
Um dia, deixará de ser.
Nem a história o contará.
Envolta em guerras sanguinolentas.
Por causa do deus capital,
Esqueceu que é, apenas, terra e mar
Que o sol queima e o vento seca.
Nem a lama, a cinza ou pó.
Quanto mais o planeta eterno que quereria ser…
Ouvindo Holst- planetas
Bar “Castelão” 26 de Fevereiro de 2020
10h1m
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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Rondo, meu eu...

Rondo, meu eu…

Meu eu é redondo.
Me abraça e envolve por dentro e por fora.
Sente fugazes os passos do tempo.
Louva e lamenta o que sabe e ignora.
Foge da dor e corre para a esperança.
Abre ao sol as janelas que tem.
Sabe de si.
Arremessa para longe o ócio e a dor,
Cultiva na sombra o bom e o bem.
Guarda para si segredos e não conta a ninguém.
Respeita os deveres e
sabe de cor os direitos que tem.
Aprecia o louvor.
Aceita sofrer por amor com os males de alguém.
Acredita que o bem é maior que o mal.
Se não fosse assim o mundo já teria acabado…

Ouvindo H. Grimaud 2/3 Rachmaninov piano concerto No.2 in C minor, op.18 [Adagio sostenuto]
Berlim, 14 de Fevereiro de 2020
9h53m
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quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Cavalos selvagens



Cavalos selvagens

Fogosos cavalos selvagens, de crinas luzindo ao vento,
Cavalgando encostas, trepando as serras, rumando às nuvens.
Cavalos de força, fazendo inveja,
Abanando as caudas.
Rapando pastagens, de noite e de dia.
Liberdade total.
Só vos faltam as asas.
Que seria do mundo...?

Alheios a tudo.
Apenas correr e pastar.
Exemplos de paz.

Cavaleiros dos montes, encostas pendentes.
Nada vos prende.
Subindo e descendo.
Primeiro, ginetes.
Depois, gigantes ladinos.

Que pensarão as formigas, rasteiras ao chão, quando, morrendo de inveja, vos vêem correr...?

Berlim, 6 de Novembro de 2019
9h34m
Jlmg







terça-feira, 1 de outubro de 2019

Lamúria das cordas do violoncelo


Lamúria das cordas do violoncelo

São quentes. Plangentes, as vibrações das cordas do violoncelo.
Quase imitam a voz humana.
Ressoa funda sua toada.
Tem as cores do silêncio e luz cava dos interiores.
Tem a força das badaladas sineiras que arrastam todo o mundo para as horas de oração.
Entrada livre e dominante em todas orquestras.
Dão a cadência dos passos certos da melodia.
Às vezes, se arrogam o direito e honra do solista.
Arrasa o coração das assembleias o soar vibrante, doce e quente das suas cordas.
De mãos dadas aos violinos,
Saem sempre triunfantes nos duelos com o possante sopro das tubas, dos trompetes e dos trombones.

Berlim, 1 de Outubro de 2019
14h45m
Jlmg





sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Negro da noite




Negro da noite

Mergulho no negro da noite e devasso no fundo o clarão do sol.
Me encontro com ele, meu velho amigo.
Falamos de tudo. Porquê o seu vaivém constante.
Regar a terra de luz e calor.
A tarefa de cada dia.
Compraz-se em vê-la florir na primavera.
Enche-a de frutos e de vinho.
Adora as primícias de cada Outono.
Respeita a manta branca que cobre os altos cumes.
Acalora-a nas encostas mais solarengas.
Se extasia com as finas linhas de água como tecem rios.
E como os vai guiando até irem dar ao mar.

Berlim, 27 de Setembro de 2019
20h31m
Jlmg