quarta-feira, 20 de maio de 2020

domingo, 17 de maio de 2020

O cesteiro das Idanhas

O cesteiro das Idanhas

Uma casinha baixa, comprida, ali à face da estrada que vai para a vila.
Existiu ali um cesteiro. Trabalhar o vime era sua arte.
A família ia buscar a matéria-prima na borda do rio. Varas de salgueiro verdes.
Estavam em molhos, encostadas à parede da casa.
A elas recorria para fazer uma giga, um açafate ou, sei lá que mais.
Trabalhava o dia todo. À vista da gente que passava.
Lembro o cheiro forte que se exalava daquelas varas.
Não era agradável.
Mas, a simpatia e a simplicidade tudo suplantava.

A evolução dos tempos destronou o vime.
O malfadado-bem-amado plástico tomou conta de tudo…

Mafra, 17 de Maio de 2020
17h42m
Jlmg

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Silhueta branca

Silhueta branca
Manta ampla verde cobre esta Tapada imensa.
Apenas um. Hierático. Como se a magicar na vida.
Um cavalo branco. Elegante. Ali está especado.
Sopram-no brandas lufadas de vento.
Suas crinas e cauda longa dançam-lhe escorraçando as moscas.
Como foi feliz a mão do seu escultor.
Estátua viva e esbelta de sangue quente.
Olhos doces onde não se vislumbra o mal.
Por ali passa a vida, alheio à chuva e ao sol.
O pasto abunda e o tempo sobra.
Sai-lhe barata a vida porque não paga renda.
Até faz inveja vê-lo aqui da minha janela…

Mafra, 22 de Abril de 2020
16h29m
Jlmg

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Lembranças perdidas


Lembranças perdidas

Seu tesouro eram as lembranças do passado.
Dos tempos de menino a brincar no adro.
Das festas de Agosto por todo o lado.
Estralejavam os foguetes nos arraiais.
Tocavam já tocados, ao desafio, os músicos sobre os dois palanques.
Cada um de sua terra.
A tradição reinava.
Muitas tendinhas com pipas gordas.
Canecas brancas em porcelana.
E, a multidão, de cara alegre, toda janota, se passeava pela alameda verde e engalanada.
O sermão era do bispo.
A autoridade-mor.
De mitra a prumo.

Acabada a missa, era a hora dos farnéis à farta, pela encosta abaixo.
Tantas famílias.
Aqueles sabores de sonho:
- o garrafão de tinto, as caçoilas de arroz do forno, a carne assada
Era a alegria em brasa…

Mafra, 1 de Abril de 2020
11h32m
Jlmg

domingo, 29 de março de 2020

Sou aldeão de gema

Sou aldeão de gema
Sou, visceralmente, um aldeão. Serrano.
Corre terra telúrica no meu sangue vivo.
Arfo a sol e monte.
Urzes e giestas são minhas flores adoradas.
Mato a sede com água pura.
Sua fonte é o ventre da terra sã.
Junto pedras às minhas pedras e construo meu abrigo.
O fogo é meu companheiro.
Minha lareira é um altar sagrado.
Vou às pinhas.
E ao cisco morto.
Odeio o fumo.
Como caldo.
São da minha horta as couves verdes.
Minha almotolia me alumia, inverno dentro.
Curto, em segredo, as azeitonas no meu odre, atrás da porta.
Dão para o ano inteiro.
Cozo pão de milho.
Mato o bicho com aguardente pura.
Como o alambique a faz.
Sou rijo como o granito,
Ao sol e vento.
Esconjuro o mal com a cruz de Cristo…
Mafra, 29 de Março de 2020
13h50m
Jlmg

domingo, 22 de março de 2020

Terraços ao sol


Terraços de sol

Me exponho ao sol como as sementes na eira.
Quero ser fecundado pela luz.
Dissipar sombras que me obscurecem.
Trazer à luz do dia minhas zonas mais ocultas.
Aquecer meu peito com a energia meteórica dos espaços siderais.
Entoar hinos e louvores à criação.
Sonhar com um futuro de paz e de harmonia para este mundo tão conturbado.
Gritar aos quatro cantos do universo que a felicidade é possível se houver paz nas consciências.
Se a solidariedade se tornar a lei universal no comportamento da humanidade.

Ouvindo RACHMANINOFF-RHAPSODY

Mafra, 22 de Março de 2020
6h56m
Jlmg

sábado, 21 de março de 2020

Anda poesia no ar


Anda poesia no ar

Anda poesia no ar no raiar da Primavera.
As aves andam em bando, alegres, cantam hinos de louvor.
Os ramos se cobrem de botões que, em breve, serão flores.
Até o sol se vestiu de luz e inundou a terra de fertilidade.
Ficou à espera pelos frutos que hão-de vir.
Quedadas lá nas alturas, as nuvens adormeceram da caminhada.
Enquanto o Verão que ainda vem longe, vai enchendo as suas fornalhas para a dura tarefa das vindimas e sementeiras.
Oxalá não venha outra invasão de vírus
Que nos ponha a cabeça em água…

Ouvindo  Gabriel Faure's Requiem Op. 48 Complete (Best Recording)

Mafra, 21 de Março de 2020
18h16m
Jlmg